sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

FAÇA UM PEDIDO!



Muitas felicidades, muitos anos de vida! – Cantaram e, logo, disseram: Faça um pedido!

No escuro dos olhos fechados, aqueles segundos pareceram horas. Longas horas de um dia em cor de laranja. Não como sépia, cor que costuma ser do que já foi. Mas, laranja; talvez, de sol, talvez, de felicidade. É que tenho o costume de associar às cores toda e qualquer sensação. Repare, então, nas cores dos balões. Com alguma sensibilidade, pode-se descobrir um pouco mais de como venho me sentindo. Assim, pela simplicidade das cores misturadas aqui.

"Faça um pedido!", falado desse jeito, ou melhor, gritado, tão sem cerimônias, parece transmitir qualquer mensagem comum. Soa como um desafio, até. Como pedir a alguém que, do mundo, espera tudo, que dentre todos os desejos entranhados em pele e coração, se escolha um?! Blasfêmia, eu diria. Incabível sintetizar algo que existe para ser ilimitado: o universo dos desejos.

Ainda com os olhos fechados, bem firmes, mas singelos, assisti a um longa-metragem em minha cabeça. Resultado de um trabalho conjunto, dirigido por mim e produzido por todas aquelas que um dia eu fui. Eu quis tudo naquele pedido. E em cinco longos segundos, quis apenas por mim. Se não for eu, quem mais vai decidir o que é bom pra mim?, diz a canção. Era hora de abrir os olhos. Os outros me esperavam; e, com eles, todas as suas expectativas. Com eles, todos os seus sonhos. Que, provavelmente, nada tem a ver comigo.

sábado, 8 de dezembro de 2012

CASO DE SOLIDÃO?


Vira-e-mexe, ocorrem cenas que me pegam de surpresa nos meus dias, transformando-os numa oportunidade de reflexão. Dessa vez, foi no ônibus. Numa quinta-feira, mais especificamente às 06:00h, um cidadão não muito velho, bem vestido e bastante desequilibrado não se conformou quando, ao embarcar, viu o motorista conversando com uma senhora, que embarcou ainda na rodoviária.

O tipo curioso, que parecia fazer questão de ser entendido (e correspondido), disse em alto em bom som que se a conversa paralela não fosse interrompida naquele momento, ele acenderia um cigarro. “Quero ver o que ele vai fazer.” – ele disse, invocado. “Chamo a PM e fica tudo resolvido!”. Comecei a notar certa ausência de lucidez.

Ficou na dele, não necessariamente em silêncio. Disse ainda que, na delegacia, ele tem voz. E eu fiquei me perguntando por que é que ele não calava a boca. Nesse horário, o ônibus está sempre cheio de gente trabalhadora. Gente que dormiu, provavelmente, menos de 6 horas por noite, sendo obrigada a ouvir papo-furado. Foi meu primeiro juízo. Não demorou, meu incômodo com o fulano se converteu em compaixão. O homem começou a recitar alguma música; poema, talvez, bem infeliz. Um dos versos dizia “Será que Deus ainda olha pra mim?”. Não sei se foi coisa improvisada, mas rimas havia.

Considerei injusto o meu primeiro juízo. E pensei que poderia ser um caso de solidão. Quem se sente só, precisa de atenção, quer ela venha por bem, quer ela venha por mal. Se não foi isso o que o moveu, o ocorrido pode ter sido provocado porque ver a vida de alguém fluir, assim, espontânea – como a do motorista e da senhora – não deve ser bem-vindo, pra quem vai mal.

Talvez, a diferença entre os ditos sensatos (como eu) e o inconformado do ônibus seja o fato de que os loucos falam, quando não gritam, sua própria aflição. Mesmo que ninguém, principalmente às 06:00h da manhã, esteja disposto a ouvir.

sábado, 1 de dezembro de 2012

PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO.




Tenho estado atento ao jeito desembolado que ela tem. Sem meios termos e sem muito mistério. Uma delicadeza forte, nada dependente. Luma chega a qualquer lugar e já vira luz, irradia. Não ri de maneira escancarada: aperta os olhos, estende os lábios, mostra pouco dos dentes, bem brancos. Abre os olhos, como num estalo, me olha de baixo pra cima. Fico tonto. É assim toda manhã. Não há santo casamenteiro e nem reza de mãe que tenha feito fluir qualquer coisa.

Gosto demais de tatuagens, das menores. Acho sexy. Ainda mais aquelas duas que ela tem. Uma na nuca, outra no pulso direito; uma estrela. Na nuca, uma escrita. Deve ser hebraico, árabe ... qualquer outra língua que eu não entendo. “Pedro, o que será que tá escrito ali?” – sempre perturbo o Pedro com essa besteira. “Deve ser o seu nome, Túlio.” – diz ele, com a mais sacana cara de deboche. “Lembra que quando a Luma entrou na empresa, ainda não tinha nada na nuca? Quem sabe?”. Bem que poderia ser. Luma sentindo um amor secreto por mim. Homens juntos são, na maioria das vezes, eternas crianças. Eu não sou exceção. Com esses assuntos com o Pedro, um mais tolo que o outro, o departamento inteiro já deve ter percebido essa minha atração. A chefia me encara com mais seriedade, até. Finjo que não sei de nada (afinal de contas, não há nada a se saber).

Festa do setor. Era tudo o que eu precisava, não fosse a minha timidez descabida. Resolvo com taças cheias, quase sempre. Luma chegou lindíssima, ruiva, salto fino e muito alto. Pernas de fora, bem brancas. Todos os caras da empresa ao seu redor; não é de se admirar. E eu, lá, no canto do bar. “Como ela pode ficar tão à vontade no meio deles e, ao mesmo tempo, não parecer nada, nada fácil?!” – fico curioso. É esse jeito moleca e esse corpo mulher que eu queria pra mim. Linda, linda, linda.

Na quinta taça, ainda não havia me aproximado dela. Duas da manhã. Tomei mais um gole, passei a mão no que ainda me resta de cabelo e segui na direção de Luma. “A festa ficou ótima, não é, Luma?” – perguntei, quase sem voz. “Ficou muito boa mesmo, Túlio. Você deveria ter ficado aqui conversando com a gente!”. Ela nem imaginava o quanto eu queria. Salvo pelo gongo, o celular dela tocou antes que eu pudesse responder. Another one bites the dust, Queen. Audaciosa. “Já vou, meu amor.” – Ela respondeu à voz eletrônica e, eu não acreditei que ela tem alguém. E menos ainda que não dava tempo de fazê-la mudar de ideia.

Nos despedimos com um “Até amanhã!” de canto de boca. Mas eu não resisti. Uma curiosidade imensa ferveu o meu sangue. Esperei até que ela descesse o elevador e me posicionei na sacada de modo que ela não me visse. Num carro vermelho, uma morena – linda - parecia esperá-la. E lá foi ela, em direção ao carro. Em direção à morena. Chegou perto, muito perto. Muito perto. Aquilo foi mesmo um beijo? Na boca?! Fiquei atônito.

A Luma gosta é de mulher. Esse foi o único pensamento que me ocorreu durante toda aquela noite. Perdi o sono. Ainda não dá pra acreditar! Os dias pensando nela, perdidos. O que ainda me conforta é que ela tem bom gosto e só. Dei risada, sozinho. Mais bêbado, depois da festa, por conta das minhas garrafas escondidas em casa. Virei de um lado para o outro da cama. Nada do sono vir. E, não. Não é que eu não conseguisse deixar de pensar na Luma. O que eu estava tentando era não pensar na Luma ... e na morena, juntas. Seria quase como um prêmio de consolação.

Sim! Infelizmente, estou apaixonado. Mas ainda sou homem. E a Luma me deve (sem saber) pelo menos um pensamento indecente.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

É PROIBIDO SENTIR SAUDADES.


Acho mesmo é que eu não nasci pro secretariado. Pelo menos, não pro secretariado daqui. Cidade pequena, estabelecimento pequeno, gente de mente pequena. Entram e saem não mais que quatro ou cinco pessoas por dia. Umas duas madames montadas nas roupas de liquidação, usando um sapato que, certamente, levaram 12x pra pagar. Um ou outro universitário, que se perdeu no corredor e que, na verdade, estava mesmo era atrás da loja de roupas que está vendendo ingresso pro Catra.

Aqui a hora não passa. E me dá uma bruta saudade de casa. É o que acontece quando falta trabalho e sobra tempo. Nesses lapsos de saudade – porque sentir saudade é quase um deslize -, eu queria era a Praia de Copacabana. Não a praia em si. Nem os caras de bermuda, menos ainda as garotas de biquíni. O sol nem me faz tão bem assim. Eu queria mesmo era a terra de Jorge Amado e de Drummond; terra minha, também. Sentir aquela brisa de mar. De lar.

Me lembro de sair do escritório, dar uma ligadinha pra Camila e juntar a primaiada. Tomar uma cerveja, duas ... talvez, três. Me empelotar só por sentir o cheiro do camarão da barraquinha do seu Zé. Ver o pessoal morrendo de rir enquanto eu procuro, estarrecida, o antialérgico que ficou no banheiro. No banheiro?!

Toca o telefone e eu repito sempre as mesmas palavras, aqui, no escritório. Serviços, valores, materiais, endereço, “obrigada pela preferência”. O bacana é que a maioria dos ditos “interessados” não vem. Quer saber ... eu acho até que ... tudo bem. Melhor que liguem e falem, falem, falem. Perguntem sobre tudo. Falem sobre a concorrência também. Me encanta! Quem sabe, numa hora dessas, não acontece um “Gostei da sua voz! Podemos nos ver?”. Devaneio puro. É que eu curto, muito, tudo aquilo que me distrai. Eu, provavelmente, responderia “Sim, fico lisonjeada!”. E seriam vencidas mais umas horas, de mais um dia, dessas semanas que não passam.

Devaneio virou meu hábito. E eu tenho asco de tudo que me permita pensar longe. Na Princesinha do mar. Nem todos me divertiam como a Camila. Nem sempre eram os primos que me acompanhavam. Só eu sei dos incidentes que vinham depois da praia, do camarão, do banheiro. Um sms recebido, transformando todo o meu dia numa zona, por completo. Pra lá, eu não volto. E aqui ... Aqui o que eu mais tenho é tempo pra pensar em Copacabana.

domingo, 25 de novembro de 2012

NÃO TÃO SÓ.


Eu gosto de estar acompanhada; seja por um ou dois amigos, por casais ou por um grupo maior de pessoas. Gosto bastante da presença dessa gente dançante, gente de olhares dispersos e despretensiosos. A mesma gente do papo-furado. Desafogo a vontade do álcool – que não sei de onde veio (nem para onde vai) -, do churrasco, de perder a linha da dieta. Deixo na mesinha de bar o infortúnio da segunda-feira regado ao estresse do dia-após-dia. E se tudo não vira samba, no mínimo, termina bem.

Termina bem, mas não termina lá. Em casa, descarrego o resto. Lavo o cabelo cheirando à fumaça, tiro a maquiagem, amiga e - acredite! - confidente. Me faço um carinho. Converso sozinha com o espelho. Sorrio, de cara lavada.

Segue, na noite seguinte, a constância dos telefonemas. “Começa às 23h! Confirmado?” e eu já nem sei. Só descubro quando chego lá. Mais gente tagarela, mais cerveja amarga, um papo mais furado e aquelas risadas de sempre. Um pouquinho mais de silêncio, porque ninguém aqui assiste jornal e falar mal dos outros já tá ficando feio, mesmo pra quem bebe. Acho que tô querendo um banho, talvez um filme. Me despeço mais cedo e me encontro um pouquinho comigo no retrovisor do carro. Engraçado.

O telefone toca, dois dias depois. Penso nos constantes convites de meia-noite em diante e, por fim, a ligação cessa. Me pergunto se não tô ficando velha. E, logo, se tem alguma coisa de errado nisso. É que tenho muito medo, medo mesmo, de ficar só. No jantar de hoje, sou eu, comigo mesma. Comida chinesa (não conheço quem goste!). Escovo os dentes; me olho no espelho com a espuma ainda na boca: vai ver que, enquanto eu estiver aqui, eu não fico sozinha, não. 

Começo a achar que, na verdade, o que eu não posso mesmo é me perder de vista.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O PRIMEIRO, QUIÇÁ, DE MUITOS.

Essa é uma tentativa a mais. De quê? De dividir e arquivar breves rascunhos de sensações aleatórias. Essa é a minha intenção, afinal, sempre há o que compartilhar através das palavras. Por mais diferentes que sejamos uns dos outros, torço para que essas palavras, ainda que poucas e breves, possam mover alguma coisa aí, dentro de você!