quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

ÉS UM SENHOR TÃO BONITO.


Brincar com o tempo e fazer dele o que bem quiser ...

Uns sofrem por antecipação. Fazem do tempo uma chuva torrencial que não espera até entrarmos em casa e tirarmos a roupa do varal para começar a cair. Uma conversa que não encontra espaço para acontecer, um encontro para o qual a distância não abre alas, um medo contínuo do amanhã, sempre incerto. O tempo sofrendo, assim, pressão entre paredes abstratas.

Outros postergam atitude. Por quê?! Porque fazer hoje o que pode ser feito amanhã?! O pedido de desculpas necessário, em atraso; a leitura de um livro acumulando mofo na prateleira; a busca pelo que, há anos, é sonhado ... E só. E lá vai o tempo carregando para longe aquilo que falta coragem para dar início. Falta coragem para admitir que falta coragem, até.

Há três horas de uma despedida qualquer, com um beijo no rosto, o rapaz checa as mensagens que trocou com a moça, já desejando vê-la outra vez. A moça, por sua vez, folheia uma revista daquelas que especulam a vida dos artistas. Não há tempo que coincida, nem mesmo para a saudade.

De fato, o tempo é relativo. E, nesses casos, nada tem a ver com Einstein. Tem a ver com a Flávia, com o Antônio, com a Roberta, com o Iago, com a Júlia, com a Ester, com a Luana, com o Téo, com a Helena, com o Marcelo, com o Frederico, com a Jéssica, com a Lúcia, com o Tales, com o Murilo, com a Vanessa (...). Tem a ver comigo. E com você também.

E, quanto ao título ...



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

SOFRIMENTO BRANDO.


Confesso não haver cogitado nunca a ideia de, um dia, enfrentar uma fase difícil como essa. Difícil. Difícil é coisa pouca, palavra rasa. Incapaz de descrever a intensidade do que vivo mesmo sem saber bem o que é. Mais surpreendente e ainda menos cogitado, fora o fato de aprender a apreciar a adversidade, como uma dor que desatina sem doer.

Sinto sua falta, é verdade. O telefone mudo me inquieta, mas não machuca tanto. Enquanto fico à espera, inconsciente, de um telefonema que não vem, passa o tempo. E esse sentimento sem nome me faz crescer. Não sei se da melhor maneira. Se é que, para crescer, existe regra invariável. E esse é o lado bom, avesso e necessário a qualquer lado ruim.

No choro, ao lembrar seu cheiro, percebo que não me esquivei do sofrimento. Dessa vez, brando, muito brando. Na saudade, ao ver de novo nossas fotos, penso, insistentemente que amaduremos. Havemos de ter amadurecido! Mas, é no acaso, quando te encontro numa calçada qualquer, que assumo num sussurro que ainda te espero. E por apenas esse detalhe, a minha angústia passa a se assemelhar a de tantos outros. Pelo simples fato de ainda haver esperança ... Sentimento que pode ser, por vezes, mais nocivo que a dor da perda. Só a esperança me amedronta. Não a dor.

domingo, 20 de janeiro de 2013

INTERESSE.


Eu não sei o que mais desperta o interesse de um homem por uma mulher. Digo isso, porque intenções e prioridades são diversas. Isso percebo do bar ao campo de futebol. Mesmo em outros tempos, quando achava que entendia qualquer coisa, não me identificava com aquilo que se dizia e, até hoje, se diz interessante. Padrões de beleza deturpados, superficialidade por status, machismo ofensivo (ou, sei lá, como chamar).

Louise me faz pensar que o que interessa a qualquer um é singular. Ela não se distancia do que atrai, claro, muitos e incômodos olhares. Tem cabelos de uns três tons que só se cacheiam dos seios à cintura, misturados em um colar de pedra azul que ela usa sempre. A indisposição só surge entre amigos por não falar mais sobre os seios. Falar?!

Sempre tive iniciativa. Fazia questão de tê-la porque o medo de me fazer emboscado por algo que não queria sempre me preocupou. Curioso é que hoje eu me deixo levar. Pelos desejos malucos, pela voz grave, pela cintura da Louise. O que abala aquilo que sempre defendi: sentir-me seguro.

Sinto-me sortudo, mesmo assim. Afastado daquilo que dizem e do que eu mesmo dizia sobre interessar-se. O que altera qualquer coisa que nos é inerente, assusta, mesmo quem nunca teve medo de mudanças. Entendo agora que existe presença que vale certas alterações. Que, ao invés, de decompor, constroem um alguém que pode ser até melhor do que parecia ser.

REGISTROS.


Misturando as coisas, criei uma galeria no Flickr, para registrar alguns detalhes que vejo por aí (de forma completamente amadora). Li algo com que me identifiquei bastante: fotografia também é leitura. Para quem gosta de tudo que é visual, aguardo a visita e agradeço, desde já! Clique aqui!

Beijos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

AS OUTRAS PESSOAS.



- Aqui tem gente de todo o tipo, mãe.

A moça do caixa da padaria é um doce e está sempre com um sorriso no rosto. Ontem mesmo a vi numa situação muito delicada, que ela levou na maior compostura. O seu Francisco, cabra nervoso, vindo lá do Nordeste, perguntou sobre o sonho que estava na terceira prateleira. Queria saber se era fresco. Para a infelicidade da Helena, acho que é mesmo esse o nome dela, o sonho era da tarde anterior. Imagine a grave cena. Ela, com um sorriso meigo, contornou a situação, toda cheia de paciência e floreios. Um tipo admirável.

Com o seu Francisco, fui um pouco injusta. "Brabo" ele é, e não faz questão de esconder, não. Mas tem um coração imenso e é de uma educação! Não passa ao lado de ninguém sem desejar um "Bom dia!". Ele busca o netinho na escola todos os dias e já dizem por aí que a moça da cantina está arrastando asas para ele. Também, faz o tipo galã da terceira idade.

São bons, os meus vizinhos; é o que posso dizer sem titubear - respondi a minha mãe, ao telefone. Só que, para ser bem franca, não posso dizer exatamente quem são. Como diria minha avó, a partir do momento em que fazemos qualquer julgamento dos outros, eles perdem a essência própria e passam a ser, de fato, nós mesmos. E aí já vira falha. Quem as pessoas são, só elas sabem.

Talvez, nem elas.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

SOBRE MUDANÇAS FÍSICAS.



As malas estão prontas. O caminhão, cheio. Sofás, estante, tapete; mesa, cadeiras, geladeira, micro-ondas, fogão, talheres; cama, colchão, guarda-roupas, roupas, toalhas, lençóis; livros, revistas, gibis, documentos; contas pagas, contas a pagar. Sempre sobra algo do lado de fora das caixas de papelão. Quem sabe, o coração.

domingo, 6 de janeiro de 2013

"MESMO SEM ME LIBERTAR, EU VOU."



A liberdade não existe e, de tanto buscá-la, muitos acabam por dar com a cara no muro, sem maiores surpresas. Nunca gostei de assuntos que tendem à filosofia. Na verdade, até gosto, mas para mim mesmo (se é que posso chamar de filosofia os meus boquiabertismos). Discuti-los me cansa um pouco. Convencer a qualquer um é tarefa para os fortes, bem dizer. Coisa que não sou.

Existem certas coisas que independem de definição, como é o caso da liberdade. O problema maior é que eu sou teimoso, gosto de tudo bem definido e ... solto o verbo quando bebo. Me vale o álibi para qualquer besteira, dita ou feita, ontem ou amanhã. No meu quarto, pouco arejado, é onde geralmente me esvazio. Aqui mesmo, por essas horas da madrugada. Longe das vozes estridentes da família, mas nunca longe do som insuportável dos carros. Não deve haver um instante sequer em que todos durmam nessa cidade.

Há muito não tenho estado só. Nem em atos, nem em ideias. Nem na madrugada. Quando me afasto do excesso, por pouco tempo que seja, é que me vejo mais completo, mais íntegro. Estranho como o cara aqui, calado no quarto, parece tão mais independente. Tão mais autêntico, no reflexo d'um copo de café. E impressiona como, nem assim, se vê, verdadeiramente livre. Nem mesmo pagando o próprio aluguel.

Cá entre nós ... Liberdade tem um quê de ilusão. Um quê de nostalgia de algo que nunca se vive. Desde as coisas mais banais, tudo é suficientemente dependente para me convencer de que liberdade só existe no plano das ideias. Um sonho ... de liberdade. Adjunto ideal. E, não. Eu não descobri isso sozinho. Fui eu, a cachaça e tantos outros filósofos de botequim. E os de não-botequim. Perdão! Nós, todos juntos, nos esforçando para fazer valer aquilo que nem todo mundo percebe: ninguém foi feito para a liberdade. Há ideia subordinada, como também há ato. Há uma dor de cabeça que puta-que-o-pariu. Mas liberdade, meu amigo, essa não há não.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

BEM MENOS.


São as fotos ao lado daquela morena que me deixam ainda mais alucinada por ele. Só pode ser. Um casal jovem, sorridente, muito bem vestido. Mais inconformada fico ao ver essa cena compelida usando pijamas. Se já não sigo o estereótipo de beleza, me sinto num nível ainda mais inferior. Parece bobagem?!

Irônico é que costumo receber mensagens no celular exatamente nesses dias mais insípidos. “Tô com saudade. Quero te ver.” E eu, provavelmente, já o vi ... nas fotografias. Estranho que eu me sinta importante ao ler essas palavrinhas sonsas, de fundo falso. Não respondo. Pelo menos até a quinta chamada perdida.

Sempre aviso aos meus pais. Não se vê mais dessas coisas, hoje em dia. Mas é que eu procuro ser prática. Aviso logo a eles com quem, quando ... menos aonde vou. Parece que é só pelo prazer posterior em ouvir minha mãe dizer aquele sutil e áspero “Eu te avisei.” Tudo bem. Pago por também tê-los avisado. Mas, alguém precisa dividir comigo desse fardo.

Levo horas pra escolher as roupas. E lá no fundo eu sei que “roupas” pouco interessam pra ele. Passo um perfume doce, por já ter ouvido dizer que são os mais marcantes, apesar de também ter ouvido dizer que são os perfumes doces que os homens menos preferem. Ótimo! Se não for por um bom papo, que eu seja lembrada pelo incômodo do cheiro no travesseiro.

Às 23:00h ele chega. E eu me sinto como mulher da foto – bonita, sorridente, especial – querendo ou não. Me sinto como a mulher da foto, não fora o fato de ninguém pode nos ver. Estarmos estampados num papel brilhante é ilusão minha, das mais pobres. Na manhã seguinte, eu volto pra casa. Pouco sorridente, pouco bonita, pouco especial. Volto, sentindo que valho menos, principalmente por querer mais.