domingo, 15 de junho de 2014

SE TUDO PODE ACONTECER.


No tempo em que eu era mistério, o perfume sutil que impregnava minha pele, insistente, passava rápido pelo seu rosto quando, num abraço, eu te aproximava a nuca. Seus olhos – pequenos e apertados – passeavam em mim. Olhos breves, errantes, que mais pareciam desentendidos sobre o que estavam fazendo.
Eu fazia que não, mas via. Lia o que queriam dizer, nas entrelinhas, os seus braços semiabertos sobre a mesa; o seu corpo inclinado à frente; o seu costume incrivelmente charmoso – e intencional – de mexer nos cabelos, a fim bagunçá-los ainda mais. Eu via, como quem não se importa se é miragem ou realidade aquilo que vê. Miragem, talvez. Miragem, no tempo em que eu era mistério.
Você vinha cheio de palavras. Algo de novo, a cada vez. Falava sobre dons, persistência, amor-próprio. E sobre qualquer outra coisa, que eu não ouvi, provavelmente por prestar demasiada atenção nos seus dedos despenteando os próprios cachos.
Eu já começava a me perguntar o por quê. Não das palavras de sempre. Mas do corpo inclinado à frente e dos olhos passeantes. E então eu, depois de tantas palavras semicheias, mesmo que o quebra-cabeças do real me impedisse, nos impedisse … eu quis saber como seria se. Se os braços semiabertos, brancos e macios, me envolvessem; se os olhos apertados passeassem por debaixo dos panos, todos. Se eu largasse o penteado pra me bagunçar nos seus dedos. E quando os “se” fizeram-se muitos, saí. Saí porque aqueles olhares, abraços e cachos não eram meus. Não pareciam ser.
Mas, veio o tempo, bonito, me dizer que, naquele seu quebra-cabeças disforme, esparramado sobre a mesa das terças-feiras obrigatórias, ainda faltava uma peça.




[Se tudo pode acontecer.]

terça-feira, 10 de junho de 2014

QUANDO CRIANÇA.


Quando criança, eu era um menino demasiado sonhador. Em noites de lua cheia, vislumbrava ser astronauta pra poder, um dia, pisar na lua. Desconfiava que aquelas manchas todas não fossem tamanha bobagem como buracos num queijo, mas pegadas de alguém que, por sorte, conseguiu pisar na lua antes de mim. Mas haja tamanho pra tamanha pegada - pensava eu. Durou esse sonho por poucos anos, mas voltava a surgir a cada punhado de semanas, assim como a lua cheia.
Certa vez, apesar da lua, me ocorreu ser pintor. Costumava sentar na beira da calçada, em algumas tardes, pra jogar bolas de gude com os outros meninos da rua. Numa dessas tardes, passou um senhor cantarolando. Entrou numa casa pálida, retirou alguns materiais e começou o trabalho. A casa terminou num tom de amarelo forte, e eu parecia sentir-me mais alegre só de olhar pra ela. Dali a alguns dias voltava o pintor. Uma casa azulada, outra esverdeada. E a cada cor, despertava-se em mim uma sensação. Cismei com aquilo. Até que, da minha rua, todas as casas foram pintadas.
Sem casas pálidas e um pouco mais moço, meus pais sugeriram que eu começasse algum trabalho leve, com a finalidade de ajudar em casa. Quebrar alguns galhos no mercadinho da rua de trás me rendeu um bom retorno. Aliás, para um menino de 14 anos, o primeiro "salário" é um mundo de possibilidades. Entreguei o que ganhei a minha mãe e ela, muito orgulhosa, me entregou a metade de volta, enquanto sorria de orelha a orelha e me agradecia com os olhos. Dizia ao meu pai: "Hoje vai ter frango pra janta!". Mesmo sendo um tanto imaturo, vendo a satisfação deles com a minha ajuda, ainda que pequena, percebi que o que eu queria mesmo, independente de como, era ter a chance de ajudá-los sempre.
Lá no mercado, enquanto somava a conta das compras dos vizinhos e embalava tudo, vislumbrava ainda um universo de opções. A cada jogo de futebol assistido, por exemplo, quis ser jogador de futebol, depois de admirar estupendos gols do Pelé. Jogando no time do bairro, tentava imitar os lances mais fenomenais que via. Não fosse a fratura no joelho, numa das minhas tentativas de reproduzir um lance do Rei, talvez hoje eu ainda estivesse jogando no time.
Noutra vez, mas especificamente no aniversário da cidade, sonhei ser ator. Veio do centro um grupo de teatro talentosíssimo apresentar uma peça sobre as nossas raízes, me lembro bem. Ao fim da apresentação, me aproximei deles para saber mais a respeito daquele trabalho. Tamanha a liberdade e diversão que aquele pessoal expunha, me animei a aceitar o convite de participar de algumas aulas de teatro. Mas quanto ao curso, só pude começá-lo quase um ano depois, graças ao cargo superior que conquistei no mercadinho que, pelo andar da carruagem, já não era mais só uma vendinha de bairro. Desde então vou duas vezes por semana ao centro da cidade, depois do expediente, e do teatro eu volto leve, há mais de dois anos. Dinheiro não rendeu ainda, mas divagações ... Essas sim.
Hoje, sentado no portão de casa, casa que ainda divido com os meus pais, a lua é cheia. As casas coloridas se assemelham num tom de alaranjado, pela luz dos postes. Os meninos que, antes, jogavam bolinhas de gude comigo, voltam pra casa em horas distintas. Alguns casaram. Nem os vejo mais. Penso, então, nesses sonhos de criança e a nostalgia me invade como uma brisa leve no peito. Profissionalmente, não vou à lua ... Não pinto casas ... E não jogo bola. Só voo alto com meus personagens, a cada atuação no teatro, pinto a nossa casa de cores diferentes a cada mês, conforme a indecisão da minha mãe, e jogo uma pelada leve, por conta do joelho, todo domingo à noite, que é o único dia livre que sobraram aos garotos das bolinhas de gude.
Não tenho mais os sonhos daquele menino. Mas trago ele escondido nos olhos. Um menino que aguarda uma ocasião qualquer para que eu aproveite aquilo que, dele, ainda houver pra sonhar ... Torne-se, tal sonho, realidade, ou torne-se somente nostalgia.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

PALAVRAS NÃO FALAM.


Eu recomeço assim ... Sem alardes, falando pouco e baixo. Deixando só que a música diga o que bem poderia ter sido eu a escrever (ou a cantar, se a voz desafinada permitisse).  O som pulsante da Mariana Aydar, está aqui. E as palavras dela que escolhi pra mim, aqui:


Eu não escrevo pra ninguém
e nem pra fazer música
E nem pra preencher o branco
dessa página linda

Eu me entendo escrevendo
E vejo tudo sem vaidade
Só tem eu e esse branco
Ele me mostra o que eu não sei

E me faz ver
o que não tem palavras

Por mais que eu tente
são só palavras

Por mais que eu me mate
são só palavras

Até breve!
E, mais uma vez, sejam bem-vindos.