quarta-feira, 16 de julho de 2014

DOS AMORES, OS PORQUÊS.


Alguns se apaixonam pra que possam oferecer. Do tipo que vê dentro de si um apanhado de buquês, daqueles a serem entregues nos dias nublados, de sereno contínuo, enquanto ela ainda veste seu moletom gasto e toma chocolate quente, às 10h da manhã de um domingo. De poucas posses, oferece tardes de pôr-de-sol e piqueniques com aquilo que ainda tem na geladeira. Dá carinho aos gatos da casa, mesmo nos dias em que eles pulam no fogão, e ainda cede aos pequenos o seu lugar na rede da varanda. Enquanto puder doar-se, sente o pulso do amor saltando intenso.

Outros se apaixonam porque precisam receber. Pra se aquecer num abraço aconchegante que amacia a dureza do velho sofá, cuja capa disfarça o gasto dos anos. Pra sentir o cheiro do café fresco vindo da cozinha até a cama, em plena terça-feira. Se assiste a um filme de comédia romântica - tão água com açúcar -, procura minuciosamente os trejeitos do mocinho do filme em seu próprio mocinho, que agora lava o carro à balde, no meio da rua. Se a maciez das mãos alheias continuarem acarinhando os seus cabelos, decerto a vivacidade do amor há de permanecer ali por muito tempo.

Outros se apaixonam pra que possam compartilhar. Enquanto o outro pega o violão e dedilha algumas notas comuns, lembra-se de que essa é a música pela qual conheceu a sua banda preferida. No cinema, com as entradas compradas de surpresa, não se surpreende, já que a sua escolha e a escolha dele se confundem. Mostra suas fotos de infância espalhadas no tapete da sala e sente, numa brincadeira de passado improvável, que naquela infância, alí, estática, esse que a acompanha poderia ser o amigo do prézinho que rabiscava o seu desenho e lhe roubava um selinho atrás do portão da escola.

E, por fim, há os que se apaixonam sem pretensões. Com porquê algum. Ou, quem sabe, com todos os porquês. Dia após dia, dão, recebem e compartilham. Talvez, sejam esses os mais completos. Apenas por viverem a de repência do amor. E amando, assim, por inteiro.

terça-feira, 1 de julho de 2014

NÃO MAIS INSPIRAÇÃO.



Você não vai ser mais a minha inspiração.

Era o que Marina dizia para si, enquanto relia o caderno de escritos seus, cuja inspiração havia sido um ruivo - um tanto exótico, de constante barba por fazer - que ocupara os últimos 365 dias de sua vida. 369, talvez. Marina não tinha a escrita como profissão. Sempre achou coisa bonita, desde muito criança. E então, no calor dos 24, quando todo apreço por qualquer coisa parece tornar-se mais aguçado que em todo o resto da vida, inclusive o desejo de se descobrir, Marina descobriu o ruivo. Pedro. E, com ele, descobriu uns versos tortos que, ao fim, soavam coerentes, senão, simpáticos. Também algumas prosas, surgidas nos instantes de fúria, em que aquele cabelo cor de fogo queimava a pele de Marina. De ódio, claro. E dá-lhe prosa, então.

Passava, não se sabe se irritadiça ou chateadíssima, folha por folha daquele caderno. Corria, mas firmemente, os olhos por cada palavra que havia escrito para ele. Por ele. E achou-se, por um instante, uma boa amadora no universo das palavras. Assim, sem modéstia. Pulou algumas páginas, que guardavam rabiscos de textos desconexos, logo para o fim do caderno. Sempre achei muito perigosos os fins de cadernos. Eles guardam pequenos segredos em códigos que, ao relê-los, nem acreditamos que um dia os tivemos. E, como se eu tivesse alguma percepção prévia sobre a vida de Marina, havia, sim, no final daquele caderninho velho algum, digamos, perigo sutil. Uma foto de Pedro, sentado numa escadaria qualquer, com a boca escancarada, cheia de dentes. Não poderia ser diferente. Como num colapso, Marina lançou fora o caderno, que atravessou a mureta que dividia sala e cozinha. Cozinha americana. Por pouco o caderno cairia na pia. 

Arrependida, como se aquela atitude fosse descabida para uma moçoila de sua idade, Marina passou as mãos pelo rosto, não admitindo a si mesma que quase chorava. Deu passadas pesadas até a cozinha como se pisasse o rosto de Pedro. Pegou o caderno, fez um carinho para desamassar as folhas e o apertou contra si. E aqui, voltava ela a olhar a foto e dizer "Você não vai ser mais a minha inspiração". Fechou a gaveta em que antes guardara o caderno. Colocou-o na prateleira, bem visível. Poderia até doer depois, mas seria breve. Ela havia se prometido que seria breve. Marina desculpou-se consigo. Com suas palavras ali rascunhadas. Não por ter sido Pedro a inspiração. Mas porque as palavras eram, antes de tudo e de qualquer pessoa, dela. E o que partisse dela, seria sempre, sempre poesia.